resenhas category image [Resenha] – A festa da insignificância, Milan Kundera 12/09/14

livro normal
Nome: A Festa da Insignificância
Autor(a): Milan Kundera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 134
Ano: 2014
Avaliação: ★★★★★
Cedido em parceria com a editora Companhia das Letras

Em 2013, o mundo editorial se surpreendeu com um novo romance de Kundera, que já não publicava obras de ficção desde o lançamento de A ignorância, em 2002. A festa da insignificância foi aclamado pela crítica e despertou enorme interesse dos leitores na França e na Itália, onde logo figurava em todas as listas de best-sellers.

Lembrando A grande beleza, filme de Paolo Sorrentino acolhido com entusiasmo pelo público brasileiro no mesmo ano, o romance de Milan Kundera coloca em cena quatro amigos parisienses que vivem numa deriva inócua, característica de uma existência contemporânea esvaziada de sentido. Eles passeiam pelos jardins de Luxemburgo, se encontram numa festa sinistra, constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stálin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, em vez dos seios ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo.

É possível uma leitura cativante e adorável ser capaz de nos conduzir em assuntos profundamente íntimos e enraizados em nossa essência? Para Milan Kundera, sim.

Em A festa da insignificância, encontramos a experiência de uma boa leitura, fluída e delicada, somada a uma saborosa discussão sobre as razões da humanidade. Somos convidados a refletir sobre o que é ser humano e também como é participar individual e socialmente de uma espécie tão complexa. Experimentamos através das histórias dos personagens sensações que vão desde o abandono mais frio de uma pessoa amada até a necessidade do reconhecimento público. Vemos por ações e comportamentos que, mesmo que por vezes vazios e inúteis, servem para suprir a necessidade de ser, de provar que existe, que está presente. Kundera oferece neste livro um mergulho refrescante e inteligente na reflexão sobre quem somos hoje e sobre nossos reais anseios. Seriamos apenas criaturas hipnotizadas no umbigo como centro do universo ou talvez enxergamos inconscientemente muito além disso?

Ainda são acrescentados elementos que trazem novas nuances e perspectivas para a construção da história que se desenrola. A espirituosa narração, sempre ácida e bem humorada, de momentos impares de Stálin e seus camaradas mais chegados, metáforas e descrições leves e bem medidas e uma admirável composição de personagens secundários, contribuem para um texto extremamente rico. Nesse quesito, os cenários não poderiam ser mais adequados à ideia do autor.

No ápice da leitura, não numa “festa sinistra”, mas sim no que vem após essa festa, Kundera coroa a insignificância com a sua devida importância e nos apresenta uma nova forma de sentir quem somos e onde nos encaixamos. Kundera constrói nas vidas simples e íntimas de seus personagens espelhos para a nossa sociedade atual, mostrando-nos futilidades a que nos agarramos com toda a força a fim de manter nossa sanidade, nossos medos e nossas fraquezas, que achamos ser muito bem disfarçadas.

A festa da insignificância é uma leitura fantástica.Suave e rápida, adorável, um texto que coloca o dedo nas feridas e aponta nossas cicatrizes, mas que ao mesmo tempo nos oferece o conforto da identificação e do entendimento. Kundera depois de 14 anos de silêncio nos presenteia com uma obra admirável e imperdível onde, mais uma vez, temos uma mistura muito bem equilibrada de arte, filosofia, psicologia e profundidade irretocáveis.

DESIGN: ★★★★★
IMPACTO: ★★★★★
NARRATIVA: ★★★★★

7 comentários
Postado em 12/09/14 por Laura Abdon



Laura Abdon
21 anos, designer de moda e futura administradora. Leitora de gosto extravagante e crítica além da conta. Tenta não ser muito ácida, nem sempre consegue. Quinzenalmente na coluna Inspiração Literária, acha bem bizarro escrever sobre si na terceira pessoa.
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7 comentários »
12/09/2014 às 19:31
Visitante assíduo e já deixou 14 comentários.

Laura, estou loucaaa por esse livro desde que vi o lançamento. Tudo nele chama minha atenção: capa, premissa, autor. E agora depois de ler sua resenha só confirmei o que já previa, o livro de fato reflete características que eu adoro, reflexões sobre a vida,critica social e profundidade em poucas e inesquecíveis páginas.
Amei a resenha e estou participando do sorteio e torcendo.
Bjoos ^^

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13/09/2014 às 17:21
Visitante assíduo e já deixou 29 comentários.

Gosto muito de leituras reflexivas, fiquei com vontade de ler esse livro por causa disso.
Sério que tem uma narrativa bem humorada? Que tudo!
Ótima resenha! Bjs, Laura <3

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16/09/2014 às 22:50
Visitante assíduo e já deixou 20 comentários.

Conheci o livro e o autor através de uma matéria do jornal folha e pela descrição fiquei com vontade de ler, agora que você resenhou fiquei ainda mais aguçado em ler esse livro

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21/09/2014 às 00:24
Você já comentou 9 vezes.

Essa capa está linda demais!!!
Kundera deixou todos esperando mas conseguiu deixar todos felizes com este lançamento!
Histórias q conseguem equilibrar tantos elementos e se manter boa é realmente fascinante!!
Já entrou p a minha lista de desejados!
Lindo!!

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29/09/2014 às 20:03
Visitante assíduo e já deixou 17 comentários.

Nossa depois dessa resenha não tem como não desejar imediatamente a leitura desse livro, que mostra e expõe sem medo nossas imperfeições, contém todos os elementos para fazer dessa uma história memorável recheada de mensagens e reflexões importantes para todos nós, ainda não conheço a escrita de Milan e acho que essa é uma ótima oportunidade de o fazer.

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23/11/2014 às 22:54
Comentou pela primeira vez, boas vindas!

Oii, cá estou eu para opinar sobre essa obra que devorei em apenas 1 dia (metade de manha no trabalho e metade em casa), o que é bem raro de eu fazer já que demoro dias ou até semanas. Mas, sendo fa do Kundera e precisando muito de uma leitura ótima para ocupar a mente, essa escolha foi perfeita.
Ótimo livro!
Um pouco estranho no começo, mas logo a gente se acostuma e a escrita do Kundera é sempre primorosa e filósofica – anotei muitas frases que me fizeram refletir.
Bom, mais uma vez: obrigado por esse livro lindo de capa-dura que tem lugar especial na minha estante!

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30/11/2014 às 10:05
Você já comentou 2 vezes.

Eu sou apaixonada por Milan Kundera desde sempre. Ele é um autor que consegue tocar na alma, ao menos na minha, e me fazer pensar em tudo o que faço de dentro para fora com sensibilidade e as vezes crueza. Não a toa “A insustentável leveza do ser” é um dos meus livros favoritos, um daqueles 10 que eu levaria para uma ilha deserta sabe?!?!

Ótima resenha.
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P.S.: Cheguei no blog a partir do evento do “Cartas de Amor aos Mortos”, comecei a conhecer o espaço por Milan porque ele é sempre uma boa escolha.

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